Na esquina da Rua Dias da Cruz com a Álvaro Ramos, em Méier, uma fachada art déco que parecia condenada ao abandono voltou a acender as luzes de neon em março deste ano. O Cine Méier — nome que muitos moradores do bairro norte carioca ainda pronunciam com saudade — reabriu depois de quatorze anos fechado. Não como multiplex. Como sala de bairro, com cento e vinte lugares, programação semanal curada e sessões comentadas aos domingos.

«O cinema de bairro não compete com streaming. Ele oferece o que a tela do celular nunca vai dar: estar junto, no escuro, dividindo o mesmo susto.» — Ricardo Alves, programador do Cine Méier

Ricardo tem quarenta e dois anos e cresceu assistindo a filmes nessa mesma sala. Quando o espaço fechou em 2012, ele estava na faculdade de cinema da UFRJ e jurou que um dia voltaria. O caminho não foi rápido: anos de negociação com proprietários, crowdfunding com moradores do bairro e parceria com a Associação de Amigos do Cinema de Méier, fundada por ex-bilheteiros e projetistas aposentados.

A queda e o que sobrou

Entre 1995 e 2015, o Rio de Janeiro perdeu mais de sessenta salas de cinema independentes. A chegada dos shoppings com multiplexes de doze a dezoito salas, a pirataria digital e a migração de público jovem para plataformas de streaming criaram um cenário que parecia irreversível. Bairros inteiros — Tijuca, Méier, Madureira, Campo Grande — ficaram sem nenhuma sala de exibição.

Mas algo ficou. A memória afetiva das gerações que cresceram indo ao cinema a pé, sem precisar cruzar a cidade. Os prédios, muitos com arquitetura dos anos 1940 e 1950, que resistiram a demolições. E uma rede informal de cineastas, críticos e programadores que nunca aceitou a ideia de que exibição deveria ser monopólio de grandes circuitos.

«Meu avô projetava filmes aqui nos anos 60. Quando reabrimos, um senhor de oitenta anos veio na estreia e disse que reconheceu o cheiro da cabine. Isso não tem preço.» — Ana Lúcia Mendes, diretora do Cine Méier

Programação que conversa com o bairro

A curadoria do Cine Méier mistura clássicos do cinema brasileiro, estreias de cineastas independentes e ciclos temáticos ligados à história local. Em maio, um mês dedicado ao cinema carioca dos anos 1970 incluiu sessões de «Lúcio Flávio» e «Tenda dos Milagres», seguidas de debates com moradores que viveram a cidade daquela época. A plateia média nas quartas-feiras — dia de ingresso popular — gira em torno de oitenta pessoas.

Em Tijuca, o Cine Tijuca Premium adotou modelo parecido, mas com foco em cinema latino-americano contemporâneo. O programador chileno residente no Rio, Pablo Morales, explica que a escolha de ficar no bairro, e não em shopping, foi deliberada: «Queremos público que volta toda semana, que indica o filme para o vizinho, que traz o filho na sessão de sábado de manhã.»

Botafogo e a nova geografia da exibição

Botafogo concentra hoje três salas independentes em um raio de oito quarteirões. O bairro, tradicional reduto de estudantes universitários e classe média intelectualizada, sempre teve público para cinema de autor. A diferença agora é que as salas não dependem apenas de distribuidoras comerciais: feiram parcerias com festivais como o Festival do Rio e o É Tudo Verdade, além de mostras itinerantes de cinema africano e asiático.

O modelo financeiro é enxuto. Ingressos entre quinze e vinte e cinco reais, bar com produtos locais, aluguel de espaço para cursos de formação em cinema e uma fatia de financiamento coletivo que cobre custos fixos nos meses de menor público. Nenhuma das salas consultadas pelo Vestígio projeta lucro no curto prazo — mas todas afirmam ser sustentáveis.

«Streaming não mata cinema. Mata cinema ruim, mal programado, que trata o espectador como número. O bairro quer ser visto — e o escuro da sala é o melhor lugar para isso.» — Pablo Morales, programador

O que vem pela frente

Outras reaberturas estão em negociação: uma sala em Copacabana que funcionou como igreja nos últimos dez anos, e um antigo cine em Laranjeiras que abrigou escola de idiomas. A Prefeitura do Rio anunciou em abril um edital de incentivo à exibição em bairros periféricos, com recursos para reforma de salas em Bangu e Padre Miguel — sinal de que a conversa sobre cinema de bairro saiu do circuito dos aficionados e entrou na agenda pública.

Para Ricardo Alves, o renascimento não é nostalgia: é estratégia. «Cinema de bairro é infraestrutura cultural. Quando uma sala fecha, o bairro perde um lugar de encontro que não se substitui com tela de celular. Reabrir é afirmar que a cidade ainda tem espaço para contemplação coletiva.»